Montinhos
“É que não se fartam os olhos de olhar a velha Tapeçaria flamenga pousada nos lombos alentejanos, onde se sucedem ao prateado do cevadal as gamas ricas dos trigos de várias cambiantes de verde, até aos amarelos doirados onde o vento cria ondulações e não falta, para melhor nos lembrar o Oceano, a refrega da pragana brilhando ao sol.
A tudo o homem, matutando à sombra do seu grande chapéu, acrescentou a mancha de verde escuro ou a bordadura dos eucaliptos, num bocado de terra pior ou na estrada comprida por onde regressam a cantar as suas filhas, em ranchos de chapéus floridos e de costas tão direitas quanto curvados os trouxeram durante o dia da monda.
A essas árvores e ao choupal fresco de alguma rara ribeira que não secou, a essas verticais insólitas, opõe-se o atarracado do sobreiro e da azinheira, esta mais copada, de um verde negro, e aquele de grandes membros descarnados em feridas vermelhas, seguros do seu lugar e pagando-o generosamente com a engorda do gado ou com a oferta da sua casa preciosa.
São esses «montados» tão queridos do homem, como os velhos olivais, que o mouro enxertou na zambujeira espontânea e o ensinou a regar. E nas sombras raras dessas florestas antigas, saudosas do cervo e do porco espinho, abranda o viajante o passo e medita.”
– “Arquitectura Popular em Portugal”